domingo, 17 de junho de 2012

Lodo

Infectando-me, poluído e conspurcado entranha-se em mim. O pânico e a ânsia inflamam-me os pensamentos, reduzindo-os a um misto mal debatido de 1/4 de nada. E tentando dizer coisas que não lágrimas aos enxames capazes de alagar a maior das fossas oceânicas, é mesmo isso que saem. Os enxames, cansados, já quase a definhar de tanto picar. A tecida teia de seda fina, agora fermentada e escura, sufoca-me, corta-me o ar, deteriora todas as opacas menções de movimento, findando-me numa letargia quase paralisada. Entro assim no velho círculo enclausurado do medo, que no passado tão inconstante e ausente, se abate agora, implacável, encarquilhando as artérias e ensopando-me os ossos. Estático, nada mais posso fazer do que deixar correr o lodo nas veias. Conformo-me com todas as germinadas hemorragias, hematomas e cancros que ardem no meu interior, que aos poucos me vão consumindo os cristalizados minerais intrínsecos, cultivados ao longo dos anos. Escorrego assim para o núcleo do fundo, e a solidão, apesar de manter constantes as pulsações sistémicas, deixa a consciência granulada, translúcida, cada vez mais insegura. E acaba tudo como começou, num início que ninguém sabe onde é. Num fim que, por mais que tentemos, não lhe conseguimos delinear o caminho, nem sequer em lençóis, muito menos nos lençóis sempre em roda, em espiral.

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